Vinte dias após o Ironman, ainda sem ter me recuperado totalmente, incluí mais uma ultramaratona no currículo. Trata-se do Desafrio Urubici 52km, uma ultramaratona de muita montanha e paisagens deslumbrantes, na qual marquei presença em cinco edições.
Eu e minha família chegamos em Urubici na sexta-feira de manhã, a temperatura não estava fazendo jus ao nome da prova e tudo indicava que no sábado não teríamos mesmo muito frio. Neste ano todos da minha família estavam inscritos na categoria individual e seria a primeira ultramaratona de meu pai aos 69 anos de idade, demonstrando que nunca é tarde demais para se começar algo e realizar coisas que sempre nos pareceram impossíveis. Desta vez além dos cinco corredores da família, pudemos contar com a presença e torcida da minha tia Rose, do seu namorado Jonas e do meu primo Jonathan que foi o responsável por algo que eu nunca havia feito antes. Ainda no dia anterior à prova meu primo aparece na cozinha com uma peruca Black Power e pede para que eu prove, todos deram algumas boas risadas, em seguida o Jonathan me desafiou a usar a peruca na corrida, e eu, como não sou de fugir de um desafio, na mesma hora disse que iria usar sim!
No dia da corrida ainda de manhã, algumas horas antes da prova, lá estava eu me preparando, colocando a bermuda, camisa, manguito, tênis, mochila de hidratação e, a peruca Black Power, para espanto de todos que até então duvidavam que eu fosse realmente usá-la. Mas não pensem que por conta disso, minha intenção era apenas participar, pois eu nunca vou a passeio para uma prova, eu curto, contemplo, me divirto, faço amizades, mas nunca deixo de dar o máximo que posso, sempre quero estar entre os primeiros, mas o mais importante para mim é buscar o meu limite, explorar meu potencial máximo do momento e não desistir nunca! Isto, para mim, é agir como um verdadeiro campeão, não como faz a maioria dos corredores e triatletas profissionais, que ao perceberem que não vão vencer ou conseguir uma boa colocação, simplesmente desistem da prova, fazer isso é o mesmo que transformar as corridas em um negócio, e por mais que os atletas profissionais vivam do esporte, agir desta forma, sob o meu ponto de vista, é deprimente. Hoje, graças aos meus patrocinadores e apoiadores, estou a um passo de poder dizer que vivo do esporte, mas se para conseguir isso eu tiver que desistir de corridas que não terei chance de ganhar, com a justificativa de ter que me poupar para outras onde poderei ganhar mais dinheiro ou mais reconhecimento, então eu digo:
“Prefiro não ganhar nenhum dinheiro correndo apaixonado, do que ganhar milhões correndo sem paixão.” Daniel Meyer
Por isso, me sinto iluminado, pois tenho o privilégio de poder ganhar dinheiro correndo com o coração.
“Menos dinheiro e mais paixão, é disso que o mundo precisa” Daniel Meyer
Mas voltando ao Black Power, logo na largada, pude perceber que realmente meu visual estava alegrando a todos, não tinha um que não esboçasse um largo sorriso ao olhar para mim. Me posicionei para a largada com o único objetivo de me redimir da prova do ano anterior, onde eu estava muito bem treinado, porém, por pura vaidade acabei fazendo meu pior Desafrio Urubici, quando, pensando simplesmente em vencer, acabei correndo no ritmo dos meus adversários, esquecendo do mais importante, ouvir meu próprio coração.
Foi dada a largada e durante quase toda a parte de ida (26,3km) corrida praticamente toda em subida, tive a companhia de dois grandes amigos, Augusto e Jimi que ajudaram a tornar as fortes subidas menos dolorosas. Cheguei no Morro da Igreja (1827m) muito bem e dentro do tempo planejado, porém a volta é sempre muito difícil, mesmo sendo quase toda em descida. Haja quadríceps! Fiz o retorno na 14ª colocação, logo assumi a 13ª e assim segui por um bom tempo, sempre incentivando aqueles que ainda estavam subindo, já que uma parte do percurso de volta é o mesmo da ida. Meu falso Black Power continuava a amenizar o sofrimento dos atletas, eu podia sentir que minha visão funcionava quase como um analgésico natural. Mas apesar de minha aparência irreverente e descontraída, o duro percurso de montanha exigia a cada quilômetro mais concentração. Lá pelo quilômetro 42, ultrapassei o 12º colocado e faltando uns 7km para o final, reuni minhas últimas energias para ultrapassar um dos grandes ultramaratonistas do Brasil, Jaime Maria da Rocha. Mas essa ultrapassagem me custou caro, pois tive que aumentar consideravelmente meu ritmo, o que começou a provocar ânsia de vômito e me fez ter que diminuir o ritmo, permitindo que o Jaime me alcançasse novamente. Neste momento começou a melhor parte da corrida, uma luta intensa pela auto-superação, eu não estava disposto a entregar os pontos tão facilmente. Tentei vomitar pela primeira vez e não consegui, corri forte para alcançar novamente o Jaime, tentei vomitar mais uma, duas vezes, até conseguir, mas sem deixar meu adversário se distanciar. Apesar de ele estar nitidamente mais inteiro que eu, ou melhor, menos acabado, corri ao seu lado como pude, até que, por volta do quilometro 50 ele sugeriu que chegássemos juntos, só consegui dizer que eu estava nas últimas e que ele deveria ir em frente, ele disse, não, vamos juntos, mas sempre aumentando cada vez mais o ritmo, continuei correndo com muita dificuldade em ritmo acelerado, mas faltando apenas 100m para a chegada, meu estômago não agüentou e involuntariamente tive que desacelerar e vomitar muito, foi incontrolável, era meu corpo dizendo que aquela velocidade era o limite! O Jaime correu sozinho os últimos metros, mas continuou gritando palavras de incentivo para que eu continuasse, me recompus rapidamente e cruzei o pórtico de chegada em 4h53min57seg, na 12ª colocação geral, 30seg atrás do Jaime e mais uma vez, realizado. Nos abraçamos e agradeci a força que ele me deu nos últimos quilômetros.
Agora era só descansar, comer alguma coisa, tomar um bom banho e aguardar o restante da família chegar. Muito orgulhoso, acompanhei a chegada de cada um deles, primeiro minha esposa Liana (vegana), em seguida minha irmã Eloisa, minha mãe Angela (agora também vegana) e por fim, meu pai, que aos 69 anos de idade completou sua primeira ultramaratona, emocionadíssimo, como eu nunca o havia visto antes!
“Eu corro pela paz, pela não-violência, pelo respeito aos animais humanos ou não, pelo consumo consciente, por amor à vida, eu corro, por um mundo vegano!” Daniel Meyer
Minha alimentação durante os 52km:
- 1 litro de água.
- 150ml de refrigerante.
- 150ml de refrigerante.
- 1 paçoca de amendoim (25g).
- 7 sachês de melado (30g cada).FORÇA VEGANA







Oi Daniel!!
ResponderExcluirParabéns pela corrida fantástica e pela superação no final!! Sempre pergunto o que nos move a fazer algo tão difícil tentando sempre superar nossos limites...vc já deu sua resposta, o amor incondicional pela vida e pelo esporte!!
Participei em dupla e já me sinto realizada pois foi a minha estréia em uma corrida dessa natureza, tão exigente e ao mesmo tempo tão espetacular!!!
Sua família é um exemplo de tudo de bom que se possa desejar nesta vida!! sou fã de vcs!!
abraços
Katia Jeremias Monticelli
Grande Daniel boa noite espetacular esse seu desafio, rapaz vc tá que tá hein mal terminou o IM e já realizou mais uma Ultra, o Vegano vc está bem fominha hein...rsss...Legal o que vc disse em que os atletas de elite fazem realmente é uma vergonha muitos deles correrem só por dinheiro e não paixão as corridas, aliás hj em dia a corrida virou comércio é uma pena...Po legal que o seu pai também virou Ultra de o parabéns a ele, opa Parabéns não a seu pai e sim a vc e toda sua família é isso aeee família unida correndo unida, muito legal o gesto do Jaiminho, quando for fazer esse desafio com certeza vou te empentelhar de perguntas pegando bizus...é isso ae meu amigo mandou mais uma...
ResponderExcluirBoa semana e bons treinos,
Um abraço,
Jorge Cerqueira
www.jmaratona.com
Foi muito legal ter estado junto de vcs em URUBICI e estarei em todas as competiçãos que eu poder ... torço muito por vc, Angela, Liana e Eloisa ... mas o Werner arrazouuuuuuu ... foi emocionante D+ ! Cada relato teu das competiçoes me emociono muito !
ResponderExcluirPARABÉNSSSSSSS SEMPRE
Correção do Comentário:
ResponderExcluirEstarei em todas as Competições rs
Vamos lá , minha cota no excelente depoimento do Jovem Dani Meyer,como era minha primeira vez em Urubici corri com muita cautela, mais achei maravilhoso tudo , percurso bastante dificil principalmente a subida do morro, quanto ao final da prova como de costumesempre que tenho algum amigo e não ativersário direto acho interessante corrermos juntos e um ajudando ao outro e foi isso que aconteceu, mais no finalzinho o Jovem guerreiro "Meyer" teve problemas estomacais, mais mesmo assim finalizou com méritos esta prova extremamente dificil, parabens a todos da familia Meyer é uma honra estar juntos a vocês,
ResponderExcluirJaime Maria da Rocha
Ultramaratonista Gaúcho
Fala Daniel!!!!
ResponderExcluirEstive no 8º Desafrio e já estou comprando as passagens para o 9º. Espero te rever lá.
Um abraço.
Marcio Rosário