Antes de iniciar o relato das 24 horas de Campinas, preciso explicar por que o meu resultado nesta prova foi tão impressionante.
Há 2 meses atrás ainda treinando para o Desafio Praias e Trilhas 84 km, comecei a sentir uma dor no joelho esquerdo que acabou me impedindo de finalizar o treinamento para a prova. No período de 1 mês, antes do Praias e Trilhas, consegui correr apenas 6 vezes, que juntas não somaram 60 km! Como eu poderia correr uma prova de 84 km de montanha em dois dias, tendo corrido apenas 60 km em 1 mês e ainda estando com o joelho esquerdo lesionado? Pois é, como não tive resposta para esta pergunta resolvi correr os 84 km para ver se encontrava resposta. No começo do primeiro dia do Praias e Trilhas o joelho já começou a doer, mas nada que me impedisse de terminar, cheguei em 7º colocado nesta primeira etapa, muito cansado e quase sem conseguir andar por causa do joelho, acordei no segundo dia e meu joelho doía até mesmo enquanto eu estava deitado, neste momento pensei ter encontrado a resposta que havia ido buscar: NÃO DÁ! No entanto, achei que, já que estava lá não custava largar. Foi um martírio, cada passada era um choque que tomava conta de todo o corpo, porém, parece que após o km 21 o cérebro desistiu de mandar a mensagem de dor, ele deve ter pensado: ele não vai parar mesmo! Fiz uma excelente corrida de recuperação e consegui chegar em 6º colocado no 2º dia, o que me rendeu a 8ª colocação no geral e a 1ª colocação na categoria. Até então, este talvez tenha sido o mais impressionante desempenho esportivo da minha vida, levando em consideração a forma como eu me encontrava, sem treino e lesionado. Mas o desempenho mais impressionante de minha vida ainda estaria por vir, por que eu já estava inscrito na Ultramaratona de 24 horas em Campinas, que aconteceria em torno de 30 dias após o Desafio Praias e Trilhas, algo que seria complicado de enfrentar, já que eu não poderia treinar, pois, precisaria curar minha lesão.
Foi então, que fui para Campinas tendo corrido apenas 4, 6, 8, 10 e 19 km, respectivamente na última sexta, sábado, domingo, terça e quarta antes da competição, só para sentir se a lesão havia melhorado, e para ter certeza de que eu ainda sabia correr! Bom, resumindo, antes das 24 horas de Campinas fiquei praticamente 2 meses sem treinar e ainda por cima, mesmo sem treino e lesionado, participei de uma competição de montanha prá lá de casca grossa que destruiu meu joelho. Como se pode ver eu estava preparadíssimo para correr 24 horas!
A corrida começou ás 10h00min da manhã de sábado e só terminou ás 10h00min da manhã de domingo. A prova aconteceu no parque da Lagoa do Taquaral e a corrida foi realizada toda na pista de 2.725m que circunda a lagoa. Como eu não fazia idéia de quanto meu corpo agüentaria, resolvi largar bem devagar, decidi que até as 12 horas de prova eu só iria correr, para só então começar a competir, caso, é claro, eu ainda estivesse de pé! Na linha de largada com exceção do Valmir Nunes, estava a nata dos ultramaratonistas brasileiros, muita gente boa mesmo! Assim que foi dado o tiro de largada, todos os favoritos dispararam na frente e eu fiquei na minha, mesmo por que não tinha outra escolha, visto o excelente treinamento que eu tinha na bagagem! Na primeira parcial dos resultados que era anunciado de 2 em 2 horas, eu estava em 52º lugar, depois fui para quadragésimo alto, quadragésimo baixo, trigésimo alto e assim sucessivamente até quando decidi fazer a primeira parada para descansar. Já com quase 10 horas de prova e 90 km percorridos, eu estava em 12º. Fiquei 1h20min fora da pista descansando e cuidando dos pés para retomar a segunda parte da prova com força total, força total é modo de dizer por que nestas alturas do campeonato ninguém mais tem força total, continuamos apenas por inércia! Voltei para pista em 17º, passei as 12 horas com 97 km, corri até fechar 120 km, quando o relógio marcou 15 horas de prova, descansei mais 55min e retornei em 15º, faltavam mais 8 horas, eu estava exausto, o sol durante o dia castigou os atletas, ouvi dizerem que a temperatura chegou aos 40ºC, e mesmo de noite estava quente, grande parte dos favoritos já havia sucumbido. Eu, apesar das dores estava conseguindo manter um bom ritmo, e a cada nova parcial eu conquistava algumas colocações, era difícil de acreditar, que apesar de quase sem treino nenhum eu ainda estava de pé e brigando pelas primeiras posições. Faltando 4 horas para acabar eu estava em 9º, meu quadríceps estava em frangalhos e meu trapézio explodindo de dores, estava ficando muito difícil manter o ritmo, na verdade, apenas me manter de pé já estava ficando complicado. Consegui manter o ritmo até as 22 horas de prova, então, comecei a passar mal, fiquei enjoado, não conseguia mais comer, tive que caminhar praticamente toda a última hora e fechei a corrida com 177,125 km em 23 horas48min19seg de prova. A regra nesta competição dizia que se você concluir sua última volta antes de ter completado as 24 horas de prova, você tem direito de abrir mais uma volta, porém, se não conseguir completá-la antes das 24 horas, este último trecho percorrido não conta, ou seja, só valeriam voltas inteiras. Como olhei em meu relógio e vi que só teria 9min para concluir uma volta, parei, pois não seria possível completar mais uma. Mas depois, vendo os resultados oficiais, vi que eu não tinha apenas 9min, mas sim, 18min40seg para completar mais uma volta, o que seria possível e me valeria a sexta colocação e 179,850 km percorridos, mas agora não adiante chorar o leite de soja derramado! Terminei a corrida em 7º, com 177,125 km percorridos, exausto, passando muito mal, vomitando, porém, com uma felicidade e uma paz de espírito capaz de contagiar todo o planeta! Não consegui nem subir no pódio para pegar meu troféu, fiquei quase desmaiado na barraca. É por tudo isso, que meu coração se entristece quando vejo meus colegas de faculdade pegando o elevador para descerem apenas 2 andares ou tirando o carro da garagem para se locomoverem 4 ou 8 km. Quanto a mim, quero continuar honrando as pernas que tenho, e até que as luzes se apaguem, quero brilhar intensamente e consumir até o último vestígio do meu ser, de preferência, junto dos meus iguais.