Relato da Ultramaratona Rio 24 Horas 28 e 29/11/2009
No dia 27/11/2009 peguei um avião rumo ao desconhecido, havia chegado a hora de experimentar algo completamente novo em minha vida, correr uma ultramaratona de 24 horas em uma pista de 400m, até então, eu não fazia idéia do que isto significava, seria de longe o maior dos meus desafios. Apesar de nunca ter corrido uma Ultra de 24 horas, eu tinha em mente algumas metas, eu esperava ao menos, correr mais de 200 km, mas acreditava que poderia alcançar os 230 km, seria um resultado fantástico para muitos ultramaratonistas experientes, quanto mais para um novato como eu, no entanto, eu estava certo de que tinha condições de alcançar estas marcas.
Cheguei no Rio de Janeiro por volta das 14:00 fui direto para a Escola Naval, local da prova e onde eu ficaria alojado junto aos demais atletas. Ainda neste mesmo dia participei do congresso técnico e do jantar de massas, que para minha infelicidade, não tinha se quer uma opção vegetariana, nem as saladas! Porém eu e outros três atletas vegetarianos solicitamos uma massa pura com um pouco de tempero e fomos muito bem atendidos, este prato feito especialmente para nós agradou também outros atletas que desejavam fazer uma refeição mais leve. De qualquer forma, mesmo que eu não pudesse jantar ali, eu estava tranqüilo por que eu sempre trago de casa o meu kit de sobrevivência, uma bolsa com os alimentos que vou precisar (granola, aveia, uva passa, banana passa, leite de soja, castanhas, gérmen de trigo, pão, melado, etc), sempre que eu viajo para competições, não gasto um real se quer com alimentação. Após o jantar voltei para o alojamento, era hora de tomar um bom banho, dar uma boa alongada na musculatura, relaxar e dormir, os alojamentos eram containeres transformados em quartos, com beliches e ar-condicionado, dormi muito bem e acordei mais disposto ainda. A organização da prova ofereceu café da manhã gratuito, porém preferi comer a minha “Tigela de Campeão Vegana” com os alimentos que eu mesmo havia trazido, assim como faço em todas as competições. Logo após o café da manhã me encontrei com o Clóvis, um grande amigo que seria o meu apoio durante a prova, mais precisamente meu anjo da guarda. Montamos nosso acampamento próximo à pista, assim como fizeram todos os outros atletas e seus respectivos apoios.Decidi correr só de sunga e sem camisa, da mesma forma que costumo treinar, fiquei relaxando um pouco antes da largada, estava tudo pronto, eu era o único que largou sem camisa e de sunga, porém o calor era tanto que não precisou de muito tempo para vários atletas estarem correndo como eu. O locutor nos chama para a largada... vai começar a brincadeira mais dolorosa de toda a minha vida, a emoção já tomava conta do meu corpo. Largamos exatamente às 10:00 do sábado, dia 28/11, teríamos agora 24 horas de pura insanidade, já no começo mantive um ritmo em torno de 5min/km, exatamente dentro do planejado, minha estratégia era sair para 5min/km e deixar a velocidade diminuir gradativamente até a velocidade de 6min/km, porém, não sei por que, não foi isso que fiz. Logo no começo alguns atletas largaram muito rápido para uma prova de 24 horas, e um deles era Marco Aurélio Martins Farinazzo que por tudo que já fez, realmente podia se dar ao luxo de correr em um ritmo tão forte, ele é nada mais, nada menos que o atual campeão da Badwater nos EUA (217km) e o recordista da Brasil135 Ultramarathon (217km). Em pouco tempo ele já havia me passado duas vezes, e isso que eu não estava lento, quando ele me passou a terceira vez, notei que ele não estava mais tão rápido e foi então que cometi um dos maiores erros da minha vida, estou me perguntando até agora por que eu fiz isto, por que eu abri mão da minha estratégia para correr no ritmo de outro atleta, antes da prova eu disse a mim mesmo que esta besteira eu não cometeria e, no entanto, no momento em que eu deveria estar diminuindo gradativamente o ritmo, comecei a correr no ritmo do Farinazzo e consequentemente aumentar a velocidade.O aumento da velocidade não foi tão grande, mas isto somado ao calor de 40° que estava fazendo, foi o suficiente para destruir o meu sistema digestivo. Com 3h de prova e 36km percorridos, eu já estava ocupando a 2ª colocação, atrás apenas do Farinazzo, mas, neste momento eu já percebia que algo não estava certo, comecei a sentir algumas dores estomacais, indícios de que meu organismo não estava mais conseguindo fazer a digestão do que eu ingeria, e isso, que até o momento eu só havia ingerido água, isotônico e refrigerante, nenhum alimento sólido, mas para seguir adiante eu precisaria de combustível, tive que diminuir bastante a velocidade, continuei tentando me hidratar e nutrir, até que vomitei pela primeira vez, comecei então a andar, para ver se o desconforto passava, mas estava muito quente, muito quente mesmo, tentei voltar a correr e vomitei outra vez, eu estava desesperado, comecei a chorar muito enquanto me arrastava pela pista, alguns atletas vinham ao meu encontro para me dar força, mas a verdade, era que, com apenas 4 horas de prova eu já estava destruído, sem esperança alguma de conseguir continuar, nem mais andar eu estava conseguindo, das 3 horas de prova até as 8 horas de prova, vomitei umas 8 vezes, fui para a piscina de gelo e para massagem duas vezes e para a tenda médica outras duas vezes também, após descansar um pouco na tenda médica, parecia que as coisas podiam melhorar, pois eu estava sentindo fome, sinal de que o sistema digestivo estava voltando a funcionar, a segunda refeição oferecida durante a prova estava quase sendo servida, por isso descansei mais um pouco e assim que o purê de batata (sem ingredientes de origem animal) foi servido, levantei e comi bastante enquanto caminhava na pista, mas eu ainda estava muito fraco e por isso fui descansar no meu alojamento para fazer a digestão e dormir um pouco, chegando no alojamento chorei muito novamente, pois tinha certeza de que dali não haveria mais volta. Enquanto dormia tive várias visões e pensamentos que não me deixavam em paz, eu pensava em tudo que eu havia batalhado para estar ali, em todos que acreditaram em mim, eu me via tendo que explicar para as pessoas por que eu tinha desistido, era como se a minha mente estivesse me dizendo que ainda não tinha acabado, que eu não podia acabar desse jeito, não eu, não sem dar o máximo, apesar de meu corpo não querer de jeito nenhum levantar da cama, a voz do meu guerreiro interior falava muito mais alto, tão alto que não me permitia dormir direito, ele dizia: levanta! Levanta! Levanta, ainda não acabou! Vamos tentar mais uma vez. Estava insuportável ficar ali deitado em quanto eu sabia que a competição não tinha chegado nem na metade, estava insuportável conviver com a derrota, com o fracasso, eu precisava voltar, nem que fosse para me arrastar na pista, mas eu precisava voltar, eu precisava saber que ao menos, eu tentei até o fim. Criei coragem, respirei fundo, me concentrei, e levantei, tomei um banho, coloquei um tênis seco e voltei para pista, já sem nenhuma pretensão em termos de desempenho e colocação, mas disposto a não deixar nada por menos de 100%, decidido a terminar esta bendita corrida de pé! Voltei para pista lá pelas 20:30, já com umas 10 horas e 30min de prova, e eu só havia corrido 62,8km. Ao todo, eu havia ficado fora da pista, agonizando, por umas 3h40min, mais o tempo que fiquei rastejando na pista, ou seja, perdi muito tempo parado ou me locomovendo muito lentamente, qualquer um que estivesse acompanhando a corrida, inclusive eu mesmo, diria que conseguir chegar entre os 15 primeiros seria impossível, pois, no momento em que retornei para pista eu havia despencado para a 60ª colocação, isso mesmo, de 2º fui para 60º. Bom, pensei, esqueça a colocação e a quilometragem, só corra, se mantenha na pista do jeito que for possível. Comecei a correr, e por mais incrível que possa parecer, eu estava me sentindo bem, correndo em um ritmo de 6min/km, corri neste ritmo por 5 horas seguidas, até que a velocidade começou a cair um pouco, mas continuei me sentindo relativamente bem, eu estava psicologicamente bem, e meu corpo estava indo meio que por inércia nestas alturas da competição. Eu nem estava mais me preocupando com a colocação até que em uma das parciais da prova, divulgada pelo locutor, ouvi meu nome, não consegui saber ao certo qual era a minha colocação, mas pude perceber que já era mais próximo dos primeiros do que do 60º, eu quase não podia acreditar, mas tudo indicava que eu já estava entre os 20 primeiros. Isto me deu muita energia, fiquei mentalmente ainda mais forte e determinado, dali em diante comecei a prestar atenção em todas as parciais sobre as colocações divulgadas de hora em hora, a cada hora eu ganhava algumas posições e chegava mais próximo dos primeiros, comecei a fazer alguns cálculos, e vi que, se eu permanecesse na pista correndo o máximo que pudesse, talvez fosse possível, ainda chegar entre os 10 primeiros, algo que seria como uma vitória para mim, levando em conta todas as circunstâncias. Continuei correndo ainda mais motivado, agora eu tinha novamente um grande objetivo, chegar entre os 10 primeiros, a tarefa não seria nada fácil. Continuei garimpando posições até que cheguei a ficar em 11º, eu estava vibrante novamente, quase eufórico, muito cansado, com muita dor, mas muito satisfeito, eu já estava agora, desde o meu recomeço às 20:30, mais de 9h30min sem sair da pista, faltavam somente mais 4 horas e mais uma virada (mudança de sentido), esqueci de dizer, a cada duas horas mudava o sentido da corrida e passávamos a correr para o outro lado, e no momento de cada virada tocava uma música do filme “Rocky” chamada “Gonna Fly Now” era sempre muito empolgante, cada vez que essa música tocava eu era tomado por uma espécie de força inabalável que se transformava no combustível que eu necessitava para ir adiante. Chega um momento em provas deste tipo que, não é mais a água, o carboidrato ou a comida que ingerimos, que nos faz seguir em frente, é a alma, simplesmente a alma, o corpo parece até desistir de lutar contra, é tanto tempo sofrendo, sentindo dor e desconforto, que o corpo parece realmente aceitar a dor, há uma mudança de paradigma, a sua percepção de tempo e de todas as coisas ao seu redor muda completamente, e você literalmente, embarca em outra viagem, uma linda viagem de pura contemplação, você ainda sente dor e sofrimento, mas é como se toda a dor e sofrimento se transformassem em dádivas, você não luta mais contra a dor, você a aceita como um presente enviado por Deus com o objetivo de lhe fazer enxergar toda a beleza da vida. Sem dúvida, correr esta prova foi uma experiência transcendental.
Em um determinado momento, pedi ao Clóvis, meu apoio na prova, que deixasse um tênis, meia, bermuda e uma toalha de banho em mãos, pois quando faltassem 4 horas eu iria sair da pista para tomar banho e relaxar um pouco, por que eu estava muito cansado, no entanto, quando cheguei às 20 horas de prova, decidi ir até o final direto, sem sair da pista, eu lutaria até o fim. Faltando 3 horas para o final, ganhei mais duas posições, estava agora em 9º, continuei firme, em um ritmo mais lento, porém ainda consideravelmente mais rápido que os outros, com exceção dos dois primeiros colocados. Faltando duas horas foi feita a última virada, foi um momento especial, era possível ver no rosto de todos os atletas um sentimento de total entrega, corríamos para a reta final. Faltando 1 hora apenas, assumi a 6ª colocação, somente uma volta à frente do 7º colocado, fiquei eufórico, extremamente contente, até comecei a correr um pouco mais rápido, contudo, sabendo desta inverção de posições, o 7º colocado começou a correr ainda mais rápido que eu, e nesse momento, eu não tinha mais da onde tirar forças, eu já tinha me entregado de corpo e alma e parecia não me sobrar mais forças para um duelo final. O 7º colocado então, começou a recuperar a diferença que eu havia tirado dele, ele parecia obstinado a fazer isso e, faltando uns 20min ele encostou do meu lado e efetuou a ULTRApassagem. É, parecia que meu destino era ser testado até o final, já que eu tinha chegado até ali, não custava nada ir um pouco mais além e pagar para ver. Foi o que fiz, corri mais forte para alcançá-lo e passamos a correr lado a lado por algumas voltas, empatados na 6ª colocação, o ritmo já estava bem forte, até que faltando 10min para o final, pensei, é agora, vamos ver do que este corpo é capaz, comecei a aumentar a velocidade gradativamente e terminei a minha jornada com um maravilhoso sprint final, quando parei de correr, gritei por duas vezes muito alto, para expulsar de mim todos os meus demônios e ficar só com o que realmente importa, a partir daí, entrei em estado de graça e me acabei em lágrimas, todos se abraçavam e se cumprimentavam, vários amigos e atletas me abraçaram e me cumprimentaram pela minha superação, eu não conseguia parar de chorar, foi a maior conquista da minha vida, me senti mais vitorioso com esta 6ª colocação do que quando fui campeão no Desafio Praias e Trilhas 84km. Esta prova me testou de todas as formas possíveis, saí de lá quase não podendo caminhar, no entanto, nunca antes em minha vida me senti tão forte. Aprendi mais em 24 horas correndo do que em uma vida inteira.
Para se ter uma idéia de como tive que me superar, nas últimas 13 horas de prova fui o 2º mais rápido, perdendo apenas para o campeão, de tempo perdido parado fora da pista, foram 3h52min, isso sem contar o tempo perdido rastejando na pista. Eu não podia imaginar que eu pudesse terminar esta corrida tão distante da quilometragem almejada e ao mesmo tempo tão satisfeito. Terminei a prova em 1º na categoria 25 à 29 anos, 6º colocado no masculino e 7º colocado no geral (entre homens e mulheres), mas o verdadeiro resultado desta corrida, não pode ser expressado em números, por que é algo espiritual, é uma mudança que ocorre na alma. Eu espero do fundo do meu coração, que todos, possam ao menos uma vez na vida, sentir o que eu senti. Não posso deixar de parabenizar Vanderley santos Pereira o campeão da prova, que fez 232km, para ser mais exato, bi-campeão da prova, se teve alguém que realmente mereceu vencer, foi esse cara, ele fez uma corrida perfeita, muito regular, ninguém mereceu mais do que ele com toda certeza, mas eu chego lá, é só o começo, foi a primeira de muitas Ultras de 24 horas que virão, agora, eu quero mais! Força Vegana!
“A corrida só acaba quando termina, tente outra vez”
FORÇA VEGANA
