quarta-feira, 16 de abril de 2014

O VEGANISMO MUITO ALÉM DO VEGANISMO

Hoje, abandonar todos os produtos de origem animal do carrinho do supermercado está mais “fácil” do que nunca. Isso, porque à medida que o número de veganos cresce em todo mundo, aumenta paralelamente também, a demanda por produtos considerados veganos e consequentemente o mercado responde a esta “necessidade” com uma avalanche de produtos industrializados substitutos aos de origem animal.
É aí que surge um paradoxo. Esta maior acessibilidade do consumidor a produtos veganos que, aparentemente parece ser algo imensamente positivo para o fim da exploração animal, pode não ser!
Basicamente o que existe hoje, não é uma maior oferta de NECESSIDADES veganas, como frutas, vegetais frescos, leguminosas e cereais, produtos de higiene e de limpeza, entre outras necessidades do homem contemporâneo. O que presenciamos atualmente é um verdadeiro mar de FU-TI-LI-DA-DES veganas, tal qual, o de futilidades onívoras! O que muda nesse contexto é apenas a origem dos insumos e a falsa sensação por parte do vegano consumista, de que está fazendo a sua parte para a construção de um mundo melhor, ledo engano.
Este é um dos meus maiores temores, que o Veganismo de Conveniência tome o lugar do Veganismo de Consciência e que, no final das contas, muitas das atrocidades cometidas por nossa civilização contra a Natureza continuem sendo perpetuadas, porém, de agora em diante, com a chancela vegana.
O que precisa ser entendido é que as premissas de nosso sistema socioeconômico, como o consumismo, a competição e o desperdício são antagônicos ao ideal vegano, enquanto não combatermos a estrutura toda em que vivemos, direta ou indiretamente, nosso estilo de vida continuará impactando profundamente a Natureza, poluindo as águas e os ares, devastando florestas, destruindo ecossistemas e extinguindo espécies, tanto da fauna quanto da flora.
Existe uma infinidade de crimes ocultos em nossa sociedade, dos quais não só somos cúmplices, mas culpados. Pois consentimos, e o que é pior, em nome do progresso, do conforto, da conveniência e da ganância, preferimos não enxergar. Nossos automóveis, estradas, usinas, fábricas, shopping centers e cidades, de forma indireta, talvez matem tantos animais silvestres quanto os matadouros animais de criação.
Para respeitar a Natureza (inclui-se aqui obviamente todos os animais) não é preciso necessariamente ser vegano, diversos povos primitivos matavam animais para o consumo, porém, de uma forma “limpa”, dentro de uma atmosfera de respeito e equilíbrio reconhecendo o valor de tudo que existe de forma anti-hierárquica. Para a Natureza não existem preferidos, seres humanos, outros animais, bactérias, rios e pedras, tudo possui a mesma importância. E enquanto não reaprendermos esta lição, veganos ou não, continuaremos destruindo tudo ao nosso redor e por fim, a nós mesmos.
Quanto mais próximos da Natureza estivermos, melhor a compreenderemos, quanto mais simplificarmos nossas vidas, melhor reconheceremos nossas reais necessidades. O veganismo como vem sendo propagado não passa de um pseudo-veganismo, apenas mais um ismo em nossas vidas repletas de contradições, precisamos enxergar o veganismo muito além do veganismo, respeitando a Natureza como um TODO e não apenas algumas partes dela.
por Daniel Meyer
 
* Artigo Publicado na 2ª edição da revista especializada em corridas de montanha, TRC (Trail Running Club).
 
 
FORÇA VEGANA
por uma nova consciência
muito além do veganismo

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

ULTRAMARATONA 48 HORAS DO ATLÂNTICO Simplesmente Brutal! - Relato

Não sei como começar a escrever sobre o que vivi durante as 48h de persistência lá na Praia da Enseada no Guarujá neste último final de semana... Ainda estou atordoado, meu corpo até que está se comportando bem, mas minha mente ainda parece estar um pouco confusa, parece ainda não ter assimilado que a prova acabou, que parei de dar voltas ao redor do pequeno circuito de 400m montado à beira mar. Minhas últimas noites de sono foram tensas, bastava eu fechar os olhos, para ser transportado de volta à Praia da Enseada para ficar lá dando voltas e mais voltas, eternamente...

Eu havia dito a vários amigos que Ultras de 48h, definitivamente não estavam em meus planos, ao menos não nos próximos 10 anos! Mas... não teve jeito, como novamente eu havia esmorecido em uma prova de 24 horas e como minha última competição do ano havia sido cancelada, eu precisava de uma redenção, como em 2012, quando após um péssimo resultado nas 24h de Campinas me redimi duas semanas depois, cravando 113,1km em uma Ultra de 12h.
Entretanto, desta vez o preço da redenção seria altíssimo! Eu precisaria resisitir por 48 horas a fio! Sem nem ao menos, ter ideia de como realizar tal proeza. Se eu nunca havia conseguido ir bem em Ultras de 24 horas, imagine então em uma de 48?!

Meu histórico em provas dessa magnitude realmente não me colocava entre os favoritos, porém, desta vez eu estava obstinado a perseverar até o fim. Eu não entraria naquela barraca novamente durante uma prova por nada! Por 7 vezes eu fiz isso em provas de 24 horas, me entreguei ao sofrimento, fui vencido pelas dores e entrei na maldita barraca, desistindo assim, do melhor que eu poderia fazer. Mas dessa vez, NÃO! Eu só deixaria a pista após as 48 horas ou, desmaiado.
Dois dias antes da prova senti meu corpo estranho, alguns calafrios e dores no corpo, mas nada muito intenso, no entanto, foi o suficiente para que no dia da prova eu acordasse com o nariz entupido e com a cabeça um pouco doída. Eu não aparentava estar mal e os sintomas eram sutis, mas eu já sabia que não largaria em condições normais.




O dia estava muito quente, apesar de nublado estava muito abafado. Larguei forte, como de costume, porém, me sentindo confortável. Geralmente consigo correr 40 a 50km nesse ritmo mais forte antes de começar a diminuir bastante o ritmo e encaixar a tocada sofrida dessas ultramaratonas. Mas dessa vez não aguentei nem 20km assim, comecei a ter calafrios e ânsia de vômito com pouco mais de 1 hora e meia de prova e por isso mudei drasticamente o ritmo, dei umas caminhadas, tomei muita água, comi mais e com mais calma e o mal estar foi passando, mas sem me permitir voltar a correr no ritmo que eu gostaria. Bom, o perrengue havia definitivamente começado. Dali pra frente seriam longas e sofridas horas de trote, caminhada, rastejo e qualquer outro método que me permitisse ir em frente.

 
Passei as primeiras 10 horas de prova na 5ª colocação geral (homens e mulheres). Minha estratégia era de parar para dar uma descansada assim que eu completasse 100km, e assim o fiz. Com 13 horas de prova concluí 100km e saí da pista para tomar um banho de mar seguido de uma boa chuveirada, uma breve massagem e um sono de 15 minutos. No total somei 1 hora fora da pista e voltei na 9ª colocação geral.



Fechei as 24 horas de prova com 157km, 2km a mais do que realizei em Valinhos 3 semanas antes. Apesar de já estar bem cansado e com mais 24 horas de labuta pela frente, eu ainda estava conseguindo me manter confiante. Com 28 horas eu estava em 8º geral com 172,4 km e com quase 30 horas assumi a 5ª colocação masculina, e das mulheres, somente a minha amiga e ULTRA CAMPEÃ Débora Simas se encontrava à minha frente.

 
Com 33 horas e 29 minutos atinge os 200km com o corpo inteiramente destruído, meus pés doíam demais, latejavam absurdamente, mesmo caminhar lentamente era insuportável... o sono também já tomava conta de meus olhos, não conseguia mais deixá-los abertos, as horas pareciam estacionadas e os quilômetros pareciam infinitos, cada volta de 400m era uma vitória, cada passagem pela frente da barrraca sem entrar nela era uma batalha vencida! Meus amigos Alexandre Nogueira Penna e Jhonatan Carvalho,não me deixavam entregar os pontos, sempre me incentivando de todas as formas possíveis a ir a diante. E minha fiel escudeira Liana, desta vez foi uma verdadeira “carrasca”, no melhor sentido que esta palavra pode ter, não me deixava amolecer em nenhum momento, só faltou cadear a barraca para que eu não  desistisse. O Jhonatan seguiu ao meu lado até o final, a briga pelas primeiras colocações estava acirrada, qualquer deitadinha e já era!



Com 39 horas de prova e 225,2km percorridos, assumi a 4ª colocação entre os homens, mas a Débora permanecia à minha frente. As dores não cessavam, meus pés estavam explodindo, o cansaço era brutal, nunca havia imaginado que eu poderia suportar tanto, não mesmo! Atravessar duas noites praticamente sem dormir e dois dias de calor intenso estavam literalmente destruindo meu corpo e minha mente. Eu já havia corrido no modo “Zumbi” outras vezes, mas nunca por tanto tempo.

 
Faltando 4 horas para o fim do maior desafio de resistência que já me propus a realizar, e com o sol se preparando para brilhar, completei 243,6km. Agora faltava pouco, mas pouco, na condição em que eu me encontrava, era algo que não existia, tudo era muito, tudo naquele momento era EXTREMO! Manter-se de pé e acordado já era uma luta difícil de ser vencida, que dirá, rastejar por mais 4 horas!



Praticamente todos os atletas com quem conversei foram enfáticos ao dizer que , 48 Horas jamais! Conversando com o Jhonatan e com o Adilson Ligeirinho nas últimas horas de prova eu disse, “Que esse seja um recorde pessoal eterno”, e eles em coro responderam, “Que seja eterno!”. Nenhum de nós se quer conseguia pensar em fazer uma 48h novamente.

 
Na última hora, ainda existia a possibilidade de eu fechar com mais de 260km, mas seria preciso correr um pouco. E faltando uns 20 minutos para o final comecei a correr razoavelmente forte, para nos últimos 8 minutos correr realmente muito forte! Não sei como um corpo que mal aguentava ficar em pé conseguia correr tão rápido. É muito estranho mas correndo muito rápido naquelas últimas voltas as dores sumiram.

Cruzei a linha de chegada na 5ª colocação masculina e 6ª geral (contando homens e mulheres), com 261,6km, encharcado de alegria e acreditem...
...Já fazendo planos para a próxima! rsrsrs

Abracei forte a Liana e vários amigos guerreiros e choramos escancaradamente juntos! Descobri naquele momento de euforia e êxtase que até as “rochas humanas” como o grande campão Delino Tomé, também choram! Foi demais abraçar esse gigante das Ultramaratonas e fazê-lo chorar também.
Tenho certeza que a maior parte dos atletas não conseguiu chegar perto da distância que almejava realizar, acredito que por dois motivos, o calor infernal e o formato do percurso com duas curvas em “cotovelo” fechadíssimas que comprometiam demais os joelhos e a velocidade. Mesmo com as distâncias percorridas ligeiramente baixas (com exceção do Delino Tomé), foi uma prova de extrema superação, duríssima, pra faquir algum botar defeito! Durante todo o evento eu só parei para dormir 4 vezes de 15 minutos, foi tudo muito mais intenso do que eu podia supor.

No final da prova falei para o Jhonatan, ainda com o choro atravessado na garganta, “Durante as 48 horas de prova é difícil achar um motivo para estar ali, é difícil encontrar um porquê. Mas quando a prova acaba fica muito, mas muito fácil de entender porque nos sujeitamos a tamanha provação.” Após as 48 horas de prova a emoção e felicidade era tanta, mas tanta, que a energia emanada por aquele pequeno grupo de pessoas era capaz de contagiar o mundo inteiro. E é por isso que continuarei correndo e buscando desafios cada vez maiores.
Conversando com minha irmã sobre as minhas sandices após a prova, já de volta ao meu paraíso na Terra, com o rosto chupado, os lábios queimados, a pele do rosto descascando, os joelhos travados, e o corpo inteiro dolorido, eu disse a ela com um sorriso no rosto, “Olha Isa, eu não sei se nesse ritmo eu passarei dos 40! ahahahaha... Mas quer saber, sinceramente eu prefiro 10 anos a mil, do que mil anos a dez!”. Ela sorriu de volta para mim concordando comigo e disse, “Esse é o espírito!”.

Esse ano desafiei a FORÇA VEGANA de todas as formas possíveis, fui aos confins de meus limites, disputando 41 provas ao longo de todo ano, sendo 14 destas, provas de Ultra endurance, aproveitei tudo o máximo possível! E agora, enfim vou descansar um pouco das competições.

Amanhã cedo eu, a Liana , minha irmã e meu amigo Celso Kon estaremos viajando de bicicleta  pelas serras e cânions catarinenses. Ao todo serão aproximadamente 1.000km, 4 serras (Corvo Branco, Rio do Rastro, Rocinha e Faxinal), mais de 20 cidadezinhas de interior e muuuuitos cânions! Tudo em ritmo de festa, sem stress e sem pressa de chegar.

Valeu 2013, foi simplesmente SENSACIONAL!  
EQUIPE FORÇA VEGANA
por uma nova consciência muito além do esporte

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

TRILOGIA FORÇA VEGANA OUTUBRO INSANO - parte 3

AP TRAIL RUN PARAÍBA DO SUL 55KM - relato



No dia 26/10 estive presente na APTR PARAÍBA DO SUL 55KM a convite de Adevan Pereira, idealizador e organizador do evento. Esta prova encerrou a sequência de competições em finais de semana consecutivos mais alucinante que já enfrentei em todos estes anos.
Não sou daqueles atletas que gostam de treinar muito para um evento específico, almejando o melhor desempenho possível em uma determinada prova. Como já mencionei diversas vezes em relatos anteriores, hoje já não treino mais, apenas nado, pedalo e corro na medida de minha vontade e tanto quanto meu coração desejar. Meu calendário competitivo não é definido de forma sensata, muito pelo contrário, sensatez não tem nada a ver com minha forma de planejar meus desafios. Sinceramente, não existe planejamento algum na escolha de minhas competições, a paixão pelas corridas de montanha é o que me move.

Dessa forma, acabo competindo muito durante todo o ano e, na maioria das vezes consecutivamente, semana após semana. A grande dificuldade destes desafios consecutivos não é conseguir concluir as provas, mas me manter competitivo em todas elas. Nesse sentido tenho conseguido superar minhas expectativas.
Os 55km da APTR eram uma incógnita para mim, não sabia como meu corpo se comportaria após as duas últimas grandes competições que participei e também não conhecia o percurso. Sabia apenas que o baita corredor e diretor técnico da prova, Manuel Lago, responsável pela criação do percurso, não nos presentearia com algo fácil. Os 2.000m de D+ e a previsão de um dia abafado anunciavam que a brincadeira seria das boas!



Largamos pontualmente às 7 horas sob um céu (graças a Deus!) encoberto por nuvens. Os favoritos, Carlos Magno e Chico santos, logo no início assumiram rapidamente a 1ª e 2ª colocação respectivamente, e eu, no melhor estilo Survivor , me estabeleci na 3ª colocação. De repente, para minha surpresa, em uma das subidas mais íngremes de toda prova, olho para trás e vejo o Magno e o Chico. Os dois tiveram um pequeno erro de percurso logo no início da prova que me permitiu liderar a corrida por algum tempo, até que ambos me ultrapassaram, me colocando novamente em meu devido lugar! rsrsrs
Não vou mentir, estar liderando a prova à frente destes dois monstros do trail running brasileiro, mesmo sabendo que eles tinham cometido um erro de percurso, me encheu de confiança! Mesmo porque, em corridas de montanha tudo pode acontecer...

Corremos juntos durante um tempo, até que os dois foram afastando-se lentamente, concluindo os 28km da primeira volta aproximadamente três minutos à minha frente. Até ali, ainda me senti surpreendentemente bem e forte para tentar, quem sabe, incomodar o Magno que já demonstrava sinais de cansaço, porque o Chico, como de costume, disparou na frente nos últimos 20km como se tivesse começado a correr naquele momento. Que ano do Chico! O cara tá ganhando tudo! É muito bom ver um cara simples como ele, que carrega nas veias o verdadeiro espírito das corridas de montanha, vencendo uma prova atrás da outra.
Gastei todas as minhas forças para tentar me aproximar do Magno, mas minha energia vegana à base de melado e paçoca já estava zerando! Lutei bastante pela 2ª colocação, mas não teve jeito, precisei diminuir muito o ritmo e administrar a prova até o final.

Concluí a corrida na 3ª colocação com 5h48min, feliz da vida! Após 18min de minha chegada, cruza o pórtico representando a “Velha Guarda”, nada menos que, Fernando Vieira, um dos caras que mais admiro nesse esporte, pura fonte de inspiração para todos nós, triatletas, ultramaratonistas e corredores de montanha.

 
Após recarregar as energias com muita banana, laranja, paçoca e goiabada, fiquei lá, próximo da chegada, sentado no meio fio à sombra de uma bela árvore, aplaudindo os guerreiros que chegavam e conversando com os amigos, me deliciando com as histórias e peripécias esportivas contadas com brilho no olho, pelo Fernando.



O clima amistoso e a proximidade entre organizadores e atletas, sem dúvida foi o grande diferencial da prova organizada pela APTR. Durante todo o evento, o que prevaleceu foi um sentimento de amizade, em detrimento àquela relação fria entre um mero prestador de serviço e seus clientes, algo que infelizmente vemos prevalecer cada dia mais em nosso esporte e sociedade.
 
Nesta corrida tive a oportunidade de rever grandes amigos, pessoas que admiro, e enriquecer ainda mais meu círculo de amizades. Nos 55km da APTR em Paraíba do Sul, quem venceu foi o Trail Running brasileiro e, desta forma, vencemos todos!

Parabéns a todos os envolvidos de alguma forma na organização da APTR Paraíba do Sul, em especial aos meus amigos Adevan Pereira e Manuel Lago, por tudo.
Trilogia Força Vegana Outubro Insano, concluída! Não com louvor ou honra ao mérito, mas com o coração em paz, e pedindo mais, muito mais!

“Não é atrás da vitória que estou correndo, eu corro, porque foi a forma mais prazerosa e verdadeira que encontrei, de tocar corações.” Daniel Meyer

FORÇA VEGANA
por uma nova consciência esportiva

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

TRILOGIA FORÇA VEGANA OUTUBRO INSANO - parte 2


DESAFIO PRAIAS E TRILHAS 84KM – A Corrida Da Minha Vida
 

“O remédio para tudo na vida é água salgada; suor, lágrimas e o mar”, disse certa vez, alguém em profunda sabedoria. Acrescente a toda essa água salgada, 84km de pura beleza altamente desafiadora e um punhado de seres humanos apaixonados pela vida, isto, é o Desafio Praias e Trilhas, a corrida da minha vida. Uma prova inigualável que, sem dúvida alguma, transcende as fronteiras do esporte de todas as formas possíveis.
Em minha oitava participação nesta corrida, que se confunde com minha história no mundo da ultrarresistência, fui presenteado com fortes e profundas emoções, ainda mais intensas do que nas edições anteriores. O Praias e Trilhas foi onde tudo começou para mim, ali errei, sofri, chorei, perdi, sorri, acertei, venci, e por fim, aprendi.

Quando viajei para Florianópolis na sexta ferira (18/10) meu coração já batia forte à espera dos dois grandes dias, como em minha primeira participação. E quando o coração está em paz, pulsando intensamente, não importa o quão destruído esteja o restante do corpo, tudo é possível! E meu corpo havia recebido uma enorme pancada seis dias antes, na Half Misión 80km na cidadezinha de Passa Quatro em Minas Gerais, a corrida de montanha mais casca grossa já realizada em terras brasileiras na opinião de quem lá esteve (na minha, inclusive).
Alinhei para a largada junto de meus companheiros com uma sensação nostálgica por tudo já vivido intensamente nesta prova, e um sentimento estranho de incapacidade, de quem gostaria de realizar algo maior do que suas limitações físicas permitiriam.

1º DIA – 42km
 
Larguei bem tranquilo, não seria possível largar de outra forma. Desde os primeiros quilômetros senti o corpo pesado, cansado... E uma dificuldade incomum de recuperar o fôlego após trechos mais exigentes.

Há oito anos corro estes 84km, e não me canso de admirar e me emocionar diante de tamanha beleza. No Praias e Trilhas tudo é diferente, todas as sensações e sentimentos intensificam-se, tudo fica à flor da pele. Inclusive o cansaço! rsrsrs... E como cansei neste primeiro dia de prova, acredito ter sido o primeiro dia mais sofrido de todas as minhas participações. Por conta do cansaço é claro, mas principalmente pela minha luxação no dedinho do pé direito, devido às diversas topadas na Half Misión na semana anterior. Meu pé estava muito dolorido mas era suportável, entretanto, eu não poderia sequer pensar em dar uma nova topada. Por isso, corri nas trilhas o tempo inteiro defendendo meu pé direito das pedras, galhos, raízes e tocos do caminho, o que tornou minha progressão bem mais lenta que o habitual, principalmente nas descidas.

 
Mesmo assim, com todo o cuidado do mundo, na pirambeira altamente técnica que leva à magnífica e selvagem praia da Lagoinha do Leste, aquilo que não poderia de forma alguma acontecer, aconteceu. Bati forte meu pé machucado contra uma pedra, nada que em condições normais teria me causado algum dano maior, porém, com meu pé completamente fragilizado foi realmente uma dor terrível, nauseante! Trinquei os dentes e engoli seco os gritos de dor... Não parei, continuei descendo lentamente, mancando e gemendo de dor a cada pisada. São raríssimas às vezes que a palavra desistir, me vem à cabeça durante alguma competição ou desafio pessoal, mas naquele momento, descendo para a Lagoinha do Leste eu pensei , pensei mesmo que não daria para continuar... No entanto, aos poucos a dor foi diminuindo e mesmo não sendo possível correr nas trilhas, era possível andar. E foi exatamente o que fiz durante todo o longo trecho de trilhas pedregosas da Lagoinha do Leste até o km 27 na praia de Armação. Tive que percorrer todas aquelas trilhas tão lentamente que cheguei a pensar que não valia mais à pena me esforçar o máximo possível e continuar competindo... Por um momento quase entreguei os pontos, não pensei em desistir da prova, mas diante de tamanha dificuldade, pensei sim, em abandonar a disputa. Porque com o tempo que eu conseguiria concluir este sofrido primeiro dia, seria impossível me recuperar no segundo, ou seja, a competição estava perdida!

“Não, não, não!!! Não é assim que eu corro! Isso tudo nunca teve nada a ver com colocações ou tempo!” , pensei comigo mesmo. “Lembra?”, me questionei. “Trata-se apenas, de sempre, em qualquer que seja a situação, fazer o melhor possível “, concluí em pensamento.
E assim segui à diante, exausto, mancando, mas segui, segui e segui mais um pouco, perseverando... Fazendo o melhor possível diante daquela situação, até que... Cruzei o pórtico de chegada e o sofrimento que às vezes parece não ter fim, cessou.



Mas, apenas metade da corrida havia terminado. E então, como pensar nos 42km do dia seguinte naquelas condições?
Concluí os primeiros 42km em 5h19min, na 16ª colocação geral, atrás inclusive da primeira mulher! A Super Campeã e grande amiga Débora Simas. Definitivamente as coisas não estavam fáceis para mim. Para conseguir uma boa colocação na somatória dos dois dias de prova, eu teria que acordar iluminado e obter um desempenho inacreditavelmente assombroso.



2º DIA – Mais 42km
Sem ter tomado NENHUM medicamento ou suplemento (algo que certamente 90% dos atletas teriam feito),  acordei tranquilo e confiante no domingo para a segunda etapa da missão. Confiante para quê não sei?! Mas foi assim que me senti, incrivelmente tranquilo, leve, descansado e confiante.

Minutos antes da largada, o clima era de total descontração, o papo fluía solto entre os amigos e, alinhados abaixo do pórtico e dando gargalhadas, nem parecia que no dia anterior havíamos corrido 42km, e que em alguns minutos, mais 42km nos aguardavam.


Como não podia deixar de ser, a galera largou voando, parecia uma prova de 5km! Fiquei tranquilo, só aguardando quanto duraria aquela euforia toda. E não durou muito mesmo, entrando nas dunas da Joaquina, logo no inicio, comecei a passar o pessoal. Achei estranho, mas desde o início meu corpo, como que por milagre, me deu sinais de que um grande dia estaria por vir... Fui passando um, dois, três, quatro, cinco atletas... Até chegar no costão da Praia Mole e ultrapassar mais um monte de gente e assumir a terceira colocação. Confesso que, neste momento tive medo de estar fazendo algo muito errado. Pois eu já havia tido recuperações espetaculares no segundo dia de prova no Desafio Praias e Trilhas, mas em nenhuma delas eu havia conquistado a terceira colocação tão rapidamente.

Ainda com um certo receio, por conta de meu inexplicável desempenho, segui firme pelas trilhas da Praia da Galheta e da Barra da Lagoa até chegar no primeiro Posto de controle e abastecimento. Parei rapidamente para me hidratar e alimentar, e parti para encarar as infinitas areias da Praia do Moçambique. Quando ainda estava parado no PC, fui ultrapassado pelo atleta que havia sido 2º colocado no dia anterior, o grande corredor Anderson Rosa da Silva, que em junho deste ano sagrou-se vice-campeão do Desafrio Urubici 50km.
Ele me passou e, com propriedade!Foi aumentando gradativamente a vantagem sobre mim, mas sem conseguir afastar-se do meu campo de visão. Decidi que ele seria minha referência. Naquele momento eu estava em quarto, feliz da vida, quase sem acreditar no que estava acontecendo e sem nenhuma pretensão de conseguir passar os grandes corredores que encontravam-se a minha frente.

No entanto, quando um atleta dos Trios passou por mim, nitidamente mais veloz, resolvi arriscar e colar atrás dele aproveitando para pisar nas pegadas que ia deixando na areia fofa, facilitando assim minha corrida. Mesmo com uma economia de energia bem maior utilizando esta tática das pegadas, estava difícil acompanhá-lo, pois ele estava correndo muito mais rápido que o meu ritmo habitual e o risco de eu terminar o Moçambique esgotado era grande, no entanto, eu precisava tentar.
Desta forma, aos poucos fui me aproximando novamente do Anderson, o que me deu uma injeção de ânimo, pois se tratava de um trecho rápido de praia, onde costumo ser bem mais lento que meus adversários. Comecei a correr tão bem que acabei deixando para trás até o atleta do Trio de quem eu havia pego “carona”. Chegando no final da praia, eu havia praticamente encostado no Anderson, e assim que começamos a subir a trilha do Costão do Santinho eu o ultrapassei, nos cumprimentamos e segui em frente, agora mais obstinado do que nunca!!!

Ali, naquele instante em que retomei a terceira colocação geral no segundo dia, passei a não duvidar de mais nada e parti com tudo, com força total, sem medo algum do que pudesse acontecer mais à diante. Ainda no costão do santinho, avistei um atleta que me parecia ser o Plínio (3º colocado no 1º dia), e chegando no segundo PC pude realmente constatar que era o próprio. Ele estava visivelmente abatido e naquele momento eu estava tão alucinado e concentrado em minha prova que nem o cumprimentei (como sempre fazemos), sequer olhei para ele e saí em disparada. Estava em transe! Eu havia assumido ali a segunda colocação, por algum tempo, mesmo sabendo que era verdade, foi difícil assimilar que só restava a minha frente o monstro do Manuel Lago, que no dia anterior venceu com incríveis 4 horas de prova!
Chegando na Praia dos Ingleses, por sorte novamente, tive alguém para me motivar e puxar ainda mais o meu ritmo. Não era um atleta da prova, mas alguém que eu não conhecia e que estava apenas treinando e decidiu correr comigo a praia toda.

Chegando no último PC na Praia Brava, senti pela primeira vez naquele dia, que minhas energias estavam nas últimas. Mas faltavam apenas seis míseros quilômetros, não era hora de, literalmente morrer na praia. Não depois de tudo que eu havia vivido!
Me hidratei e alimentei bem, juntei todas as minhas últimas forças e saí rumo à Ponta das Canas onde encontrava-se o tão aguardado desfecho dessa miraculosa epopeia.

Cada quilômetro deixado para trás era uma comemoração. Minhas pernas já começavam a pedir clemência, a vontade de parar para descansar a cada subida mais íngreme era imensa. Mas parar não era uma opção, não tão próximo do fim... Nos últimos dois quilômetros de prova, lembrei de todos as emoções vividas em todos esses oito anos de Praias e Trilhas. Lembrei de todas as dores, todas as derrotas, todos os amigos... lembrei de minha primeira grande vitória, das pessoas simples, verdadeiros guerreiros que passei a admirar, enfim, de todos os presentes que essa corrida me proporcionou ao longo de todos esses anos.
E quando cheguei à última praia, já avistando ao longe o pórtico de chegada, o sentimento que tomou conta de cada célula de meu castigado corpo, não foi o de, missão cumprida; Mas de saudade. Sim, naquele momento, mesmo antes de cruzar a linha de chegada, eu já estava sentindo saudade de tudo de mais belo que essa corrida significa para mim. E por isso, mesmo com meu corpo clamando pelo fim, eu desejei por um instante, não chegar. Eu não queria que toda a mágica contida naqueles 84km pudesse acabar...

 
Mas, como tudo na vida, o DESAFIO PRAIAS E TRILHAS 2013, também chegou ao fim. E quando cruzei o pórtico, não pude me conter, deixei todas as emoções extravasarem, sem pudor algum e desabei, em pranto e êxtase!
 




Minutos depois, já recomposto, mas ainda anestesiado de alegria, percebi que com o tempo de 4h49min que eu acabara de cravar, existia a possibilidade, mesmo que remota, de beliscar um lugar no pódio entre os cinco primeiros colocados na classificação geral. E não é que por um minuto e alguns reles segundinhos, eu consegui! Na somatória dos tempos dos dois dias, fiquei com uma absurda e extremamente comemorada quinta colocação geral.


No final do evento, já na premiação, o grande campeão e novo recordista da prova, Manuel Lago, fez um discurso emocionado. Demonstrando com clareza e profundo sentimento tudo que o Desafio Praias e Trilhas representa para todos nós, que nascemos para o mundo das ultramaratonas, ali, naquelas trilhas e praias.

 
O Desafio Praias e Trilhas é uma prova inigualável em todos os quesitos imagináveis. Se eu tivesse que escolher uma única prova para correr todos os anos, durante todos os anos de minha vida, sem dúvida alguma, essa prova seria o Desafio Praias e Trilhas 84km em Florianópolis.

O Professor Carlos Duarte, diretor da Ecofloripa e idealizador e organizador desta corrida mágica, nos disse que o Praias e Trilhas só continua existindo por conta de sua teimosia, pois, mesmo estando em sua 11ª edição, a prova nunca lhe deu algum significativo retorno financeiro por conta da baixa procura dos atletas e patrocinadores.
Eu espero do fundo do meu coração, que este relato contribua de alguma forma para o crescimento e sucesso desta prova ÚNICA. E desejo também que o meu amigo Carlos Duarte continue sendo esse bom e velho sonhador de sempre, exercendo sua TEIMOSIA de modo ilimitado! Para que possamos voltar a desfrutar todos os anos (não apenas a cada dois anos) das belezas desta corrida repleta de sentimentos.



Obrigado a cada integrante da Equipe Eco Floripa por todos os belíssimos e maravilhosos momentos vividos.
Vida longa ao Desafio Praias e Trilhas!

FORÇA VEGANA
por uma nova consciência esportiva

terça-feira, 12 de novembro de 2013

TRILOGIA FORÇA VEGANA OUTUBRO INSANO – parte I

A prova que relatarei aqui, deu início a sequência de competições consecutivas mais alucinante que já me propus enfrentar em todos estes anos, desafio que batizei carinhosamente de TRILOGIA FORÇA VEGANA OUTUBRO INSANO, composta pelas seguintes provas:

12 e 13/10 - HALF MISION BRASIL 80KM, uma prova de autossuficiência com seus 4.600m de desnível positivo e ponto culminante no Pico da Mina a 2.800m de altura (5º mais alto do Brasil).
19 e 20/10 - DESAFIO PRAIAS E TRILHAS 84KM, ultramaratona multi Day realizada em dois dias consecutivos (uma maratona/dia) nos mais belos e desafiadores lugares da ilha de Florianópolis.

26/10 - APTR PARAÍBA DO SUL 55KM, prova de montanha com pouco mais de 2.000m de desnível .


1ª PARTE
HALF MISÍON BRASIL 80KM -relato


No dia 10 de outubro viajei para Passa quatro, uma aconchegante cidadezinha de Minas Gerais encravada no pé do imponente Pico da Mina com seus 2.800m de altitude. O motivo da viajem? Participar daquela que viria a ser a corrida de montanha mais insana já realizada em terras brasileiras.
Sobre minha participação nesta prova, todos meus amigos, companheiros de equipe e conhecidos estavam cientes. O que ninguém sabia, era o perrengue que eu passaria antes do perrengue dos 80km propriamente dito!

Para conseguir me manter competindo e também como forma de motivar as pessoas a adotarem um estilo de vida mais simples e consequentemente não consumista, procuro simplificar e economizar o máximo possível em tudo! Por exemplo: calçados esportivos costumo comprar apenas um ou dois pares por ano (isso para um ultramaratonista é quase nada), com alimentação também procuro gastar bem pouco, também abandonei o triathlon competitivo por conta da necessidade de comprar equipamentos caros, e praticamente tudo que ganho nos kits e premiações das competições eu vendo; camisetas, bonés, viseiras, suplementos, tênis, toucas de natação, eu vendo tudo! E sempre me hospedo em campings quando vou competir.

O problema, é que desta vez não haviam campings em Passa Quatro, a grana estava extremamente restrita, e mesmo que não estivesse, eu não estaria disposto a gastar cinquenta a oitenta reais em um albergue ou pousada. Por isso, fui para a Half Misíon com a intenção de não gastar um tostão com exceção das passagens de ônibus, e ciente de que provavelmente teria que dormir na rua. Levei comigo uma barraca, saco de dormir, roupas e toda a comida que eu necessitaria para praticamente cinco dias (contando os dias de viajem de ida e volta). A mochila ficou bem pesada!
Chegando em Passa Quatro, fui diretamente fazer meu cadastramento no evento e após os devidos procedimentos concluídos, como daquele momento em diante eu estaria sem eira nem beira e com uma mochila bem pesada nas costas, decidi almoçar por ali mesmo. Comi uma parte do macarrão com farofa de milho com gengibre e alho que eu havia levado, uma laranja e uma manga e me mandei, ainda sem saber para onde exatamente.

Haviam me dito que existia um albergue na cidade e que vários atletas estariam hospedados por lá, “Opa! É lá mesmo. Deve ser uns 20,00 a diária, isso eu pago!”, pensei comigo. O dia estava bem quente e eu já havia andado mais do que gostaria com aquela mochila gigante nas costas às vésperas de uma corrida tão desgastante que estaria por vir. E mesmo tendo decidido não gastar nada, meu cansaço já estava conseguindo me convencer a fazer algumas concessões. rsrsrs
Mas chegando no albergue, fiquei sabendo que o valor da diária era de cinquenta reais e não vinte como eu havia imaginado, e naquele momento, tomei a difícil decisão de, recusar uma boa cama e um banho revigorante. Saí dali e fui para uma das praças da cidade e fiquei divagando, um tanto quanto angustiado, sobre o que iria fazer.

“Porque que você tem que ser assim? Custa ceder um pouquinho só de vez enquando?!” me indagava um de meus tantos Eus interiores. “Amanhã você estará todo fodido antes mesmo da largada! É uma corrida de 80km de montanha de autossuficiência, não uma corrida de 10km que acabará em pouco menos de 40 minutos, caramba! Paga aquele quarto e dorme direito!”, continuava exclamando incansavelmente este meu Eu interior de pouca fé. Parecia até que eu estava ouvindo minha mãe! rsrsrsrs
Fiquei ali sentindo o vento no rosto e decidindo para onde iria, se ficaria na praça mesmo, ou se tentaria um lugar na beira da rodovia que ficava mais distante dali. Não dei ouvidos aos pensamentos que me convidavam a esmorecer e rumei em direção à rodovia. Caminhei uns seis quilômetros naquele dia.

Andei bem mais do que gostaria com aquela mochila, mas enfim, chegando à rodovia avistei de longe aquele que seria o meu refúgio e local de descanso para o grande dia.
Montei a barraca na beira da estrada à sombra de um belo e reconfortante bambuzal e ali comi, deitei e dormi (sem banho).

No dia seguinte, acordei cedo e tomei um bom banho, utilizando pouco menos de 1,5l de água! rsrsrs. Desmontei o acampamento e parti para o local da largada.
Minha perambulação na véspera e no dia da prova à procura de um refúgio gratuito para pernoitar, pelo simples prazer de desafiar o “sistema”, pode ter me custado um desempenho melhor na corrida, contudo, não ter cedido aos confortos e regras da sociedade naquele dia, me deixou profundamente contente e satisfeito; Valeu cada gota extra de suor e dor.

“Amo correr, sobretudo, afrontando o sistema!” Daniel Meyer
Deixei minha mochila com a organização do evento na praça onde montaram base. Assim que comecei a correr, percebi que seria um dia difícil, de extrema superação. Logo nas primeiras subidas leves, meu coração já sofria como se estivesse diante de uma ascensão monumental, e naquelas condições, pensar nas monumentais e verdadeiras ascensões que de fato me aguardavam, era perturbador.

Quando as primeiras subidas íngremes ao cume do Capim Amarelo e em seguida ao Pico da Mina começaram, eu fiquei realmente com medo... Porém, como estava mais do que comprovado que aquele não era o meu dia, não me restava outra coisa a fazer se não, diminuir muito o ritmo, cuidar de minha hidratação e alimentação e aguardar pelo milagre das ultramaratonas. E como comumente costuma a acontecer, passei a me sentir um pouco melhor, longe de me sentir um Kilian Jornet, mas já conseguia pensar nos 80km com bem mais confiança.
 
Que corrida duríssima! Minha nossa!!! A questão da autossuficiência durante toda a prova foi algo novo para mim. Depender apenas do que foi trazido na mochila e de eventuais córregos pelo caminho, tornam o desafio ainda mais intenso e perigoso. E muito mais prazeroso!

E como se não bastassem os 80km, a autossuficiência e o desnível positivo absurdo de 4.500m, praticamente metade da prova teve de ser percorrida à noite! Muitos tiveram de atravessar a noite toda na labuta!
Me senti muito fraco durante o primeiro trecho de 30km até os quase 2.800m de altitude do Pico da Mina. E só comecei a me sentir melhor após ter tomado muita água em um riacho e aproveitado para devorar com voracidade, bons bocados do salvador macarrão com farofa que havia levado.

Feita a digestão deste banquete nas alturas, eu já me sentia outro homem e desci revigorado a montanha até o “Paiolinho” km 35 da prova. Nesta descida cheguei até a retomar a segunda colocação que havia perdido faltando poucos metros para o cume. Mas, para minha infelicidade, ao retornar para os 1.500m de altitude, em uma longa estradinha de terra que me conduziria até o PC IBAMA no km 50, minhas forças voltaram a desaparecer. Dali em diante acionei o piloto automático e, de lanterna na mão (eu não tinha lanterna de cabeça) trotei sofregamente os 15km até o próximo PC e alcancei os 50km.
 
O que me perturbava naquele momento, era descobrir como eu iria vencer mais uma longa ascensão em trilha recentemente aberta em meio à mata até a cota de 2.400m do Pico do Tijuco Preto, quando eu mal conseguia me arrastar por uma estradinha fácil em leve descida? Como? Bom, o piloto automático já havia sido ligado há várias horas, então, não importava mais o quanto desmoralizantemente lenta seria minha progressão, eu iria em frente de qualquer jeito, ou melhor, para cima!

Que trilhinha complicada essa do Tijuco, meu Deus! Eu e um amigo francês que me acompanhou do km 52 ao 68 penamos demais nessa trilha. Tivemos que parar para um breve descanso por três vezes. Quase não acreditei quando enfim, chegamos ao cume. Deste ponto em diante nossa maior preocupação era com relação à água, pois o reservatório de meu mais novo amigo havia secado e o meu estava quase no fim. Compartilhamos o restante de água que ainda me restava e despencamos montanha abaixo em busca do líquido vital que nos aguardava no Refúgio serra Fina, o derradeiro PC no km 68.
Chegamos ali sedentos, minha garganta já estava arranhando de seca. O francês chegou ao Refúgio na quinta colocação e eu, logo atrás na sexta. Mas sexta colocação masculina, porque no geral eu era o sétimo. É isso mesmo, havia uma mulher à nossa frente senhoras e senhores! Uma garota provavelmente vinda de outro planeta, mas ainda assim era uma garota. E pasmem, ela chegou na segunda colocação geral!

Alienígenas à parte, voltemos a saga de um reles mortal. Chegando no último PC, mais dois guerreiros juntaram-se a nós. Fui o último dos quatro a deixar o local, pois precisava remendar o meu Five Fingers Bikila (calçado similar a uma luva para os pés) velho de guerra pela terceira e última vez naquelas montanhas. Pois então, quase ia esquecendo de dizer que o descendente de faquir aqui, decidiu correr esses oitentinhas básicos de montanha com um Five Fingers já todo estrupiado e com a sola rasgada na altura do dedão. Foi uma escolha extremamente dolorosa sem dúvida alguma, principalmente pelas inúmeras topadas precisas, quase sempre no mesmo sofrido dedinho do pé direito. De tudo que passei naquelas montanhas, as topadas foram sem sombra de dúvidas, a parte mais dolorosa.
Abandonei o último PC em direção à chegada procurando encontrar alguma forma de correr sem ter que encostar os pés no chão! rsrsrs. Cada pisada naquela estrada toda em cascalho era um martírio, ainda não sei como meus pés aguentaram.

E foi assim, com os pés esfarrapados e o restante do corpo completamente deteriorado, ao som de alguns parcos e sonolentos (mas sinceros) aplausos, que esse vegano que vos escreve, cruzou a linha de chegada da Half Misíon na madrugada do dia 13 de outubro de 2013 na cidadezinha de Passa Quatro, na nona colocação geral, com 15h30min de prova. Mais uma vez, com o coração em festa.
 
Depois da Missão cumprida, nada melhor que um bom banho quente e uma merecida cama macia, não é? Na verdade, o que me esperava era uma recompensa bem mais à altura do desafio que eu acabara de vencer.

Um banho bem gelado na fonte da praça, seguido de um breve, mas profundo sono dentro do saco de dormir no chão duro sob o belíssimo céu de Minas, ao som da emocionada comemoração de cada guerreiro que chegava, era tudo de que eu precisava. Sinceramente, não conseguiria pensar, em uma recompensa melhor.

“Desafiemos o sistema imposto de todas as formas possíveis, todos os dias, incansavelmente, uma hora ele há de ruir.” Daniel Meyer

RESULTADOS COMPLETOS AQUI


FORÇA VEGANA
por uma nova consciência  

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

FORÇA VEGANA NO TRAIL DOS AMBRÓSIOS 30KM - relato



Após um final de semana livre de competições (coisa raríssima para mim este ano), tive o privilégio de encarar no último sábado (09/11), mais uma desafiadora e belíssima corrida de montanha organizada pelos meus amigos da TRC (Trail Running Club).

Bom, tratando-se da TRC, no Trail dos Ambrósios 30km, mesmo sendo uma corrida mais curta do que venho enfrentando, certamente o PERRENGUE estaria garantido.  Os caras são conhecidos por organizarem as corridas mais insanas do Brasil, mesmo quando as distâncias são bem curtas o desafio e o D+ (desnível positivo) são sempre elevadíssimos.
No Trail dos Ambrósios, o que nos aguardava eram 34km distribuídos ao longo de aproximadamente 1.400m de D+ entre estradas de terra, trilhas e campos de altitude. Um verdadeiro parque de diversões para os amantes do Trail Running.


Dada a largada, logo assumi a 3ª colocação. Permaneci nesta posição até o km 14 aproximadamente, quando comecei a me sentir um pouco fraco e decidi reduzir o ritmo para poder me alimentar e hidratar melhor e com mais calma. Neste momento, perdi a colocação para o atleta que vinha em meu encalço, porém, se deixar que se afasta-se de mim. Em poucos minutos comecei a me sentir bem melhor, assumi novamente a 3ª colocação e parti confiante em busca do 2º colocado. Difícil era decidir se corria ou admirava a paisagem (um espetáculo!). Bem, tentei fazer ambos na medida do possível.
Voltei a me sentir realmente forte e não demorou muito para avistar o 2º colocado logo à minha frente. Ao passar pelo PC no km 19 ou 21 (não lembro bem), fui informado pelo staff, que eu estava há 9 minutos do 1º colocado, o excelente corredor de montanha Cléverson Del Secchi. A diferença era menor do que eu imaginara, no entanto, ficara evidente que a disputa seria pelo 2º lugar.

Desci firme as trilhas dos campos de altitude até chegar novamente nas estradas de terra, onde em uma encruzilhada, avistei um staff e perguntei: Para onde irmão? Para a esquerda! Respondeu ele sem titubear.
Segui a estrada indicada pelo staff, mas não via mais nenhuma marcação no percurso, que até então, do meu ponto de vista, estava impecável. Continuei em frente, passando por várias bifurcações sem marcações, estava muito estranho. Comecei a ficar preocupado, achando que pudesse ter me perdido, no entanto, não havia como eu ter me perdido, pois eu estava seguindo exatamente o caminho indicado pelo staff, e observei atentamente todas as bifurcações, eu tinha que estar certo! Continuei correndo sem marcação alguma até que, com aproximadamente 6 minutos correndo sem ver nenhum sinal de marcação da prova, decidi parar. Pensei no que poderia ter acontecido, e não encontrando resposta, resolvi retornar.
Eu não conseguia entender o que poderia ter acontecido, em 9 anos de corridas de montanha eu nunca havia me perdido, e afinal, o staff tinha me sinalizado o caminho. Ainda confuso e angustiado, quase chegando ao lugar onde havia encontrado o último staff, encontro, vindo em minha direção, os 2 atletas que estavam à minha frente e o que estava em 4º, também sem ideia alguma do que estava acontecendo e do que deveríamos fazer, visto que, eu já tinha corrido mais de 1 km para um lado e o Cléverson para o outro, tentando inclusive um 3º caminho. Parecia não haver o que fazer a não ser ficar ali parado esperando alguém da organização chegar. Mesmo assim, insisti com os 3 que deveríamos tentar encontrar o caminho. E andando um pouco, novamente na direção que o satff havia me indicado, encontramos marcações colocadas recentemente, que não estavam ali quando passamos. O Cléverson me disse já ter descido ali e que não dava em lugar algum. Ainda assim, decidimos seguir as novas marcações e voltar a correr. Logo encontramos o staff que havia nos indicado o caminho errado marcando a trilha, que mais uma vez, estava errada.

O coitado do staff, obviamente, estava tentando fazer o melhor possível, contudo, para nosso desespero, ele estava mais perdido que a gente! rsrsrs... Agora eu até dou risada, mas na hora foi um tanto quanto desesperador. Juntamente com o staff, continuamos tentando encontrar o caminho correto, subindo e descendo estradas e trilhas que não levavam a lugar nenhum. Perdemos muito tempo ali procurando encontrar o caminho e nesse meio tempo vários atletas juntaram-se a nós, sem saber o que fazer. Estávamos já bem abatidos, sobretudo, psicologicamente. Estávamos correndo e andando em círculos durante muito tempo, até que o Pexe (um dos organizadores da prova e conhecedor do percurso) nos encontrou e informou do acontecido. Alguém havia retirado toda a marcação do percurso naquele local. Mas não haviam retirado somente alguns metrinhos de marcação, retiraram um trecho relativamente longo.
Quando tudo parecia ter terminado ali, perguntei ao Pexe: Mas você sabe onde é o caminho correto? Claro! Disse ele. Então nos mostre e vamos continuar! Eu e outro atleta retrucamos quase em coro.

A apatia da maioria dos atletas ali presentes era enorme, mas os mais prejudicados éramos nós, os 3 primeiros colocados. Que percorremos mais distância em vão do que todos os outros, o Cléverson principalmente.
Mesmo cansados voltamos a correr. Naquele momento em que ainda faltavam 12km para o fim da corrida, sem contratempos já teríamos chegado! Apesar do desastre ocorrido eu queria concluir a prova de qualquer jeito e fazer o melhor possível. Pois, eu havia ido lá para correr 34km e não 22km.

Eu e o Cléverson seguimos correndo juntos na frente, e ao chegar em um posto de hidratação, quando tudo parecia correr bem novamente, não é que para nossa tristeza e desolação as staffs nos indicaram o caminho errado novamente!!! Essa hora foi cruel demais! Cheguei a pensar que nunca mais iríamos encontrar o caminho correto para a chegada e teríamos todos que viver para sempre ali, nas montanhas do Quiriri em Tijucas do Sul! rsrsrsrs
A brincadeira que já não seria das mais fáceis em condições normais, estava ficando realmente complicada e desgastante. Mesmo assim, reunimos nossas forças uma vez mais, e rumamos em direção à chegada que ainda sonhávamos existir. Agora sim, para nosso alívio, com o caminho muito bem demarcado. Corri ao lado do Cléverson até o km 30, quando ele acelerou um pouco, chegando 3 minutos à minha frente. É claro que diante do ocorrido, mesmo que eu tivesse chegado antes do Cléverson, eu passaria a vitória a ele, pois antes dos imprevistos todos, ele já se encontrava bem adiantado. E da mesma forma, eu passaria minha 2ª colocação ao atleta que estava em 2º até aquele momento fatídico, caso eu não tivesse conseguido tirar a vantagem que ele tinha sobre mim antes dos acontecimentos desastrosos.

Concluí a prova na 2ª coloção geral com 4h31min27seg, tendo percorrido um total de aproximadamente 37,5km somando todos os imprevistos.  O Cléverson correu uns 39km!

Mais do que um teste físico, o Trail dos Ambrósios apresentou-se, devido aos imprevistos, um enorme desafio psicológico. Uma experiência que eu certamente não gostaria de vivenciar novamente, mas que representou um grande aprendizado. Desistir não é uma opção!


Diante de tudo que ocorreu, todos nós que fomos prejudicados pela falta de marcação em um determinado ponto da prova, poderíamos perfeitamente ter decidido não correr mais depois do ocorrido. Mas não, apesar de alguns atletas terem desejado parar por ali, a maioria de nós queria continuar, queria correr... E foi essa força de vontade que fez com a que festa continuasse como se nada tivesse acontecido.

Corredores de verdade não ficam reclamando, não ficam procurando desculpas, não se importam se foram prejudicados. Corredores de verdade querem apenas, CORRER!

Aos amigos da TRC, só tenho a agradecer pela belíssima corrida que nos foi proporcionada. Vocês precisam sim, rever alguns detalhes técnicos para que imprevistos desse tipo não venham mais a acontecer. Porém, imprevistos acontecem até nas principais provas do mundo, e sabemos do empenho de todos vocês em fazer sempre o melhor possível pelas corridas de montanha no Brasil. Obrigado sempre!
Está aí pessoal, mais uma pequena contribuição da FORÇA VEGANA para o fim da exploração animal. Os alimentos de origem animal são completamente desnecessários à saúde humana. O derramamento de sangue e todo sofrimento destas pobres criaturas pode ter fim agora mesmo, basta que queiramos.

Permita-se a mudança, se não conseguir mudar tudo, mude um pouco, mude aos poucos, faça o que puder, mas permita-se a mudança, tente, por favor.
FORÇA VEGANA
por uma nova consciência esportiva

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Homem ao mar!

Escrevi este poema há uns dois anos, mas só agora achei por bem publicá-lo.

Homem ao mar!
É possível que ninguém entenda os meus motivos,
mas preciso, de uma vez por todas, abandonar o barco...
Minha vontade de gritar é cada vez maior!

Os grilhões dourados dessa embarcação me atraem cada vez menos...
Eu QUERO menos... preciso respirar, por conta própria,
sem a ajuda de aparelhos. Não dá mais para aguentar...
Eu vou saltar!

Antes o perigo e a liberdade de um homem ao mar,
que a certeza e segurança de estar em um navio, destinado a naufragar.
Não peço, nem preciso que me entendam...
Só não quero mais remar!

Quando pequeno me prometeram:
Reme forte a favor da corrente e terás direito a tudo,
quem sabe até um cargo de capitão poderás alcançar!

São demais os perigos dessa vida... para quem ama então?!
Não consigo mais VER, verdadeiramente, sem chorar... Abro mão,
eu renuncio, RENUNCIO!!!

“A liberdade costuma vir vestida de trapos, mas ainda assim é bela,
muito mais bela que todas as moedas de ouro e prata”,
foi o que disse há tempos, em alto e bom tom meu amigo Thoreau
pouco antes de, ao oceano se atirar.

Desde então, venho planejando revoluções.
Mas não é tempo de planos,
não há mais tempo, nem planos...
É hora de SER! SALTAR!

E só queria dizer que,
a complacência dessa tripulação enferma
tem me deixado nauseado.

Não consigo entender as premissas, regras e metas
dessa aberração,  navio negreiro,
levando brancos, amarelos, vermelhos e negros (todos ignorantes, alienados, letrados, estudados, diplomados, condecorados).

Máquina devoradora de florestas, rios, terras, animais, mares e homens,
E tudo que se possa conquistar.
Quanto mais rápido melhor! REMEM! REMEM!

Escravos de nosso tempo,
todos pagos (uns bem, outros não) pelo trabalho de remar.
Sem saber pra onde, sem saber porque...
Uma vida inteirinha dedicada a remar! Não apenas o necessário,
mas tanto quanto o capitão MANDAR!

Para que se possa continuar a navegar tranquilamente,
nesse mar de futilidades!
Mar de sangue,
sangue de quem não teve chance,
de quem não teve sorte...
sangue de uma Terra estuprada e de gente manipulada!

A diferença entre o rico e o pobre nessa barcaça desolada?
Desconsiderando a quantidade de moedas no bolso, NENHUMA.
Pois ambos possuem a mesma mentalidade destrutiva,
propagada aos quatro ventos desde a mais tenra infância.
Queira mais! TENHA mais!

O pobre desejando ser rico e o rico, ser ainda mais.
Ambos brigando sempre para ver
quem é o mais rápido remador.
Deprimente!

E eu, que não sou rico nem pobre e nem crente, porque LIVRE.
Eu que, já não possuo pátria nem patrões,
com calma e num gesto decidido, desarmo as armadilhas,
dispo a fantasia, retiro a máscara e subo
no mastro mais alto dessa nau à deriva.

E de lá, a La Thorreau
arrisco o definitivo salto,
assim mesmo, nu! Salto mortal? Não!
Para a vida real. Enfim, LIBERDADE!
Livre de remos, condecorações, patentes e canhões...

É certo que,
por minha condição de homo sapiens civilizado (que em verdade de nada sabe),
um genuíno filho das contemporâneas galés,
hoje, ainda caminho levando algumas coisas obsoletas nas mãos
e algum peso nas costas.

Entretanto,  minha alma rebelde e meu coração de natureza selvagem,
não me deixam esquecer que a cada dia,
minha bagagem fica cada vez menor.
E que desta máquina, já não sou mais engrenagem.

Daniel Meyer